PontesVolume 8Número 1 • fevereiro de 2012

Comércio global e crescimento: perspectivas e desafios para as economias em desenvolvimento


by Otaviano Canuto e José Guilherme Reis

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Os impactos da crise econômica de 2008-2009 sobre o comércio internacional foram enormes, com queda de cerca de 10% nos fluxos comerciais globais. Mesmo assim, Brasil, China, Índia e Indonésia apresentaram taxas de crescimento positivas nos fluxos de comércio entre 2007 e 2009. Este artigo sustenta que esse período assinala o início de uma nova ordem no comércio internacional, na qual países emergentes de rápido crescimento revelam resistência a flutuações na economia. Com base nesse argumento, os autores delineiam alguns quadros para o comércio global no contexto da crise atual.

Após o abandono das políticas de substituição de importações postas em prática até os anos 80, os países em desenvolvimento (PEDs) conheceram uma expansão sem precedentes nos níveis de integração comercial. De fato, entre 1983 e 2008, o comércio global cresceu 85% acima da produção global, e os PEDs beneficiaram-se particularmente dessa expansão: as exportações anuais dos países de renda média e baixa cresceram 14% ao ano desde 1990, bem acima dos 8% ao ano dos países de renda alta. O rápido crescimento econômico da China e dos países do Leste asiático está intrinsecamente associado à adoção de estratégias de crescimento baseadas em exportações, as quais contribuíram para uma rápida diversificação econômica e uma mudança na composição do comércio baseado em commodities para produtos manufaturados.

Duas mudanças estruturais no comércio internacional viabilizaram esse desempenho favorável das exportações dos PEDs: i) a fragmentação vertical e espacial do processo de produção em “redes de produção globais” altamente integradas; e ii) o aumento no comércio de serviços. Ambos foram possíveis graças a grandes revoluções tecnológicas, apoiadas por reformas multilaterais em políticas comerciais e por uma ampla liberalização no comércio interno e em ambientes de investimento, tanto em países desenvolvidos (PDs) quanto em PEDs. As tarifas médias em países de renda alta diminuíram drasticamente desde os anos 60. Nos Estados Unidos da América (EUA), por exemplo, a tarifa aplicada média para países mais favorecidos (MFN, sigla em inglês) foi reduzida pela metade para atingir 10% nos anos 90 e ser uma vez mais cortada pela metade nos anos seguintes.

Ainda assim, a resposta dos PEDs só começou a surgir no final dos anos 80. Nesse momento, grandes avanços tecnológicos – particularmente no setor de transportes (remessa de contêineres) e tecnologia da comunicação – reduziram drasticamente o custo de transporte de bens e da administração de redes complexas de produção. Muitas das tendências que guiam a “terceirização” da produção também contribuíram para a globalização de serviços. Isso inclui mudanças drásticas na tecnologia, transporte e comercialização de muitas atividades de serviço, permitindo que poderosas forças de vantagem comparativa se desenvolvessem. No Sul da Ásia, o setor de serviços é responsável por mais de 50% do crescimento no produto interno bruto (PIB) regional entre 1980-85 e 2000-07.

A crise econômica global de 2008-2009 levou à maior queda do comércio internacional desde a Segunda Guerra Mundial, com uma queda simultânea dos fluxos de comércio em todas as regiões do mundo no quarto trimestre de 2008. O comércio global caiu 12% em 2009, com alguns países registrando quedas ainda mais pronunciadas (ver Gráfico 1): as exportações japonesas, por exemplo, caíram nada menos que 50% entre fevereiro de 2008 e fevereiro de 2009. No entanto, o fato de que quatro grandes países emergentes (Brasil, China, Índia e Indonésia) lograram apresentar taxas de crescimento positivas nos fluxos de comércio entre 2007 e 2009 pode ser identificado como o marco de uma nova ordem no comércio internacional, na qual países emergentes de rápido crescimento mostram resistência a flutuações na atividade econômica.

O bom desempenho desses países ajuda a explicar a rápida recuperação sem precedentes dos fluxos comerciais que se iniciou já em 2009. Mais importante, ao contrário do que muitos esperavam quando do início da crise, o recurso a medidas protecionistas como forma de enfrentar a crise foi em boa medida contido, mostrando que as regras do sistema multilateral de comércio funcionaram. Na verdade, as medidas de tendência protecionista adotadas têm sido, em geral, consistentes com as regras estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC), na medida em que utilizam mecanismos de proteção temporária.

As perspectivas para os próximos anos

Apesar da recuperação dos fluxos de comércio no período pós-crise, a evolução recente mostra sinais de desaceleração, acompanhando as incertezas sobre a recuperação econômica global. De fato, o comércio internacional tem perdido força desde meados de 2011. A desaceleração é mais notada em países de alta renda. A demanda de importação na zona do euro diminuiu no terceiro trimestre de 2011, com importações caindo 4% na França e na Alemanha, comparadas com o segundo trimestre de 2011. No mundo todo o transporte de cargas pelo ar vem declinando desde junho de 2011. Por fim, o transporte intercontinental de navios (um importante indicador de comércio) tem revelado um crescimento relativamente estável desde a grande queda no início de 2009, mas sem nenhuma evidência de nova redução. De todo modo, como indica o Gráfico 2, a evolução do comércio no episódio atual da crise nem de longe se parece com o que ocorreu em 2008-09.

A evolução futura do comércio global será ditada, sem dúvida, pelo ritmo de recuperação da economia mundial. Como se sabe, o ímpeto da retomada pós-crise não se sustentou e hoje as perspectivas de crescimento global seguem incertas. Enquanto as perspectivas de crescimento global seguem ancoradas no robusto crescimento das grandes economias emergentes e, em menor medida, na recuperação da economia dos EUA, a grande incerteza segue sendo a crise europeia e seus desdobramentos. Embora as recentes medidas adotadas pelo Banco Central Europeu tenham reduzido sensivelmente a temida possibilidade de um credit crunch – o que teria consequências potencialmente desastrosas para a recuperação da produção e do comércio mundiais –, a verdade é que há crescente preocupação com os problemas de solvência de bancos e governos na Europa. Um processo de desalavancagem bancária na região está em curso, com consequências para toda a economia global – inclusive através do encolhimento de do setor de financiamento ao comércio (trade finance). Ainda que o cenário mais provável seja o de administração dos problemas europeus, a incerteza associada aos elevados níveis de endividamento na periferia da área do euro podem constituir obstáculos significativos ao crescimento, dada a interdependência com os demais blocos de países.

Na verdade, estamos vivendo ainda os desdobramentos da grande crise de 2007-08, a qual esteve longe de ser apenas uma recessão severa, tendo na verdade se caracterizado por um colapso sincronizado nos mercados de crédito, imóveis e ativos, como notaram diversos autores. Na verdade, a expansão precedente – ainda que insustentável – revelou mudanças estruturais profundas e irreversíveis na dinâmica da economia mundial. Entre essas mudanças, estão o peso e a relevância muito maiores de vários países do mundo em desenvolvimento no crescimento e no comércio mundiais.

Os desafios para os PEDs

Apesar deste ambiente de incerteza, algumas tendências observadas nas últimas décadas no comércio global – particularmente importantes para os PEDs – não devem mudar. A primeira delas é o crescente peso das relações Sul-Sul. As importações dos PEDs de seus pares chegam agora a nada menos que 45% do total. Isso tem sido determinado em boa medida pelo crescimento dos países emergentes (a China em particular), e essa tendência só deve ser reforçada nos próximos anos. O ponto importante a notar é que esses mercados vêm se tornando uma alternativa para os países mais pobres, tradicionalmente dependentes dos mercados ocidentais mais desenvolvidos. De fato, o peso dos países emergentes cresceu de 20% para 32% do comércio dos países mais pobres na última década.

O crescente peso das cadeias produtivas globais no comércio internacional deve seguir sendo uma importante característica do comércio. Na verdade, essa tendência tem sido reforçada no período mais recente com a transferência de centros de inovação para alguns grandes países emergentes – com destaque para China, Índia e, mais recentemente, Brasil. Esse processo de mudança na “geografia da inovação” parece ter origens distintas dependendo dos países de atração e, se consolidado, terá consequências importantes para a dinâmica do comércio e crescimento das maiores economias emergentes.

Mais difícil de prever é a evolução futura no preço de commodities, que tem sido um fator decisivo para o bom desempenho comercial de diversos países exportadores de recursos naturais. Em 2011, os preços de commodities apresentaram um pico no primeiro trimestre e subsequentemente caíram por conta das perspectivas menos favoráveis de demanda. No ano como um todo, apesar da desaceleração da atividade econômica mundial, enquanto os preços de commodities não energéticas caíram 11%, os produtos de energia mostraram crescimento de 14%. No médio prazo, o acompanhamento dos especialistas do Banco Mundial ainda aponta para uma estabilidade no preço das principais commodities.

Em resumo, a incerteza segue dominando as perspectivas para o crescimento e o comércio globais no curto prazo. No entanto, os eventos recentes ilustram que a maioria dos países segue comprometida com a integração comercial como opção estratégica para o desenvolvimento. A manutenção desse compromisso e de políticas macroeconômicas robustas persistirá como um elemento indispensável para a continuidade do bom desempenho das economias emergentes. A médio prazo, estratégias de diversificação, tanto de mercados como de produtos, devem seguir como prioridade na agenda dos PEDs, para melhor administrar os riscos inerentes à integração no comércio global. A resistência do dinamismo no comércio Sul-Sul deverá continuar como uma das dimensões da troca de locomotivas na economia global que se vislumbra no médio prazo.

* Vice-presidente da Rede de Política Econômica e Redução da Pobreza (PREM, sigla em inglês) do Banco Mundial.
** Economista principal do Departamento de Comércio Internacional do Banco Mundial.

Ver: Reis, J. G.; Farole, T. Exports and the Competitiveness Agenda: policies to support the private sector. In: A Handbook on the Future of Economic Policy in the Developing World. The World Bank, 2010, capítulo 5.

Ver: Ghani, Ejaz. The Services Revolution in South Asia. New Delhi: Oxford University, 2010.

Conforme notado por Haddad, M.; Shepherd, B. Managing Openness: trade and outward-oriented growth after the crisis. The World Bank, 2011.

Ver: Canuto, O.; Haddad, M.; Hansen, G. (2010). Export-led growth v2.0. In: Economic Premise, No.3, The World Bank, mar. 2010. Disponível em: www.worldbank.org/economicpremise. Ver também: Haddad e Shepherd, 2011.

Ver: Canuto, O.; Leipziger, D.; Pinto, B. The challenges of Growth. In: Canuto, O.; Leipziger, D. Ascent After Decline: regrowing global economies after the great recession. The World Bank, 2012.

Entre eles, destaca-se o trabalho de Rogoff, K. The Second Great Contraction. Project Syndicate, ago. 2011. Disponível em:www.project-syndicate.org.

Como observado por Canuto, Leipziger e Pinto, 2011.

Ver: Canuto, O.; Dutz, M.; Reis, J. G. Technological Learning: climbing a tall ladder. In: Canuto, O.; Giugale, M. (orgs.). The Day afterTomorrow: a handbook on the future of economic policy
in the developing world, 2010, capítulo 3.

Ver: Arbache, J.; Goldstein, A. Investimentos em inovação pelas multinacionais no Brasil. Trabalho apresentado no seminário sobre inovação, Rio de Janeiro, out. 2011.

Ver: Mitchell, D.; Aldaz-Carroll, E. Structural Changes in Commodity Markets: new opportunities and policy challenges. In: Haddad, M.; Shepherd, B. Managing Openness: trade and outward-oriented growth after the crisis. The World Bank, 2011, capítulo 20.

Ver: Canuto, O. Recoupling or Switchover? Developing Countries in the Global Economy. In: Canuto, O.; Giugale, M. (orgs.). The Dayafter Tomorrow: a handbook on the future of economic policy
in the developing world, 2010, capítulo 1.

One response to “Comércio global e crescimento: perspectivas e desafios para as economias em desenvolvimento”

  1. luiz

    ok

  2. Anonymous

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