PontesVolume 8Número 4 • julho de 2012

Balanço da Rio+20: uma perspectiva mobilizatória


by Paula Collet

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Neste artigo, a autora realiza um balanço das atividades da ONG 350.org na Rio+20. Embora reconheça a necessidade de muitas mudanças no que diz respeito à participação da sociedade civil e ao desenvolvimento sustentável, a autora considera que a Rio+20 conferiu uma grande responsabilidade aos movimentos sociais nesse processo de transformação.

A 350.org é uma organização não-governamental (ONG) que surgiu com o objetivo de ajudar organizações, governos, instituições e pessoas a empoderarem-se e fazer da 15ª Conferência das Partes (COP, sigla em inglês) – realizada em Copenhague – um momento decisivo das negociações climáticas, que nos liderasse para a redução das emissões de carbono até 350 partículas por milhão (ppm) de CO2 na atmosfera.

Depois de Copenhague, o movimento climático – inclusive a 350.org – passou por um processo de amadurecimento e reflexão sobre como dar continuidade ao objetivo referido acima em outras frentes, para além dos possíveis tratados globais. Nesse processo, algumas coisas ficaram claras: o movimento climático é forte e global, e as ações que conectam pessoas dentro das negociações com as que estão protestando fora, mais os milhares de espectadores que estão em seus países acompanhando as notícias e querendo influenciar seus governos de alguma forma, produzem uma união de forças poderosa e necessária. Além disso, também ficou claro que os motivos que impedem que os países alcancem um acordo não têm origem nas negociações, mas sim nos governos – que muitas vezes não refletem o interesse de suas populações.

Por isso, em 2010, a 350.org criou uma campanha mundial voltada ao empoderamento das pessoas, bem como a estimulá-las a criar as soluções que queriam para o mundo e convocar seus líderes políticos a acompanhá-las. Em 2011, a ONG incentivou sua rede a pressionar os governos para que cuidassem das pessoas e do meio ambiente, em detrimento dos interesses econômicos de uma minoria. Nesse mesmo ano, a 350.org enviou uma grande equipe a Durban (África do Sul) para participar da COP 17 sem grandes mobilizações ou intervenções; a proposta era aproximar os integrantes da equipe global e os parceiros da ONG para que trocassem ideias, apresentassem planos e articulassem novas parcerias.

Durante a COP, a equipe observou que as negociações estavam enfraquecidas e que sua presença naquela Conferência a afastava de seus objetivos. Para uma equipe global que promove mobilizações, treinamentos e campanhas locais (nacionais e regionais), esse quadro exigia novas medidas. Nesse sentido, a 350.org juntou-se com outras organizações e jovens e realizaram uma manifestação semelhante ao “Occupy Wall Street”, à frente do local onde se realizava a plenária da COP. Negociadores de países parceiros, lideranças africanas e todos aqueles que não se sentiam representados pelas decisões da reunião foram convidados para fazerem suas vozes serem ouvidas em um enorme jogral – prática utilizada no movimento “Occupy” e conhecida como “microfone humano” – nos corredores da negociação.

Apesar da importância dessa iniciativa, a 350.org decidiu que não mais deslocaria um grande número de seus integrantes de todo o mundo para as conferências internacionais. Após Durban, a ONG concentrou-se em levar equipes pequenas e regionais para as conferências, dar oportunidade para organizadores locais se destacarem e utilizarem o momento para reforçar as redes e parcerias regionais.

O planejamento das ações da 350.org para a Rio+20 teve início dentro do contexto mencionado acima: uma equipe pequena foi encarregada do desafio de incrementar a rede nacional e regional, empoderar seus organizadores e articular parcerias em torno da campanha global da 350.org, de modo a conectar os diferentes públicos – dentro, fora e longe das negociações – desta organização.

Em toda a preparação para a Rio+20, observou-se uma mistura de sentimentos: a esperança de um processo decisório e ambicioso havia sido minada pela forma de organização do encontro; mas restava, para os diferentes movimentos, a esperança de utilizar a Rio+20 como um grande momento, e não um fim. Além disso, o pessismismo de alguns fazia com que olhassem somente para a Cúpula dos Povos, por considerarem-na uma instância de representação legítima das pessoas; ou ainda os mais pessimistas, que desacreditaram em qualquer processo participativo, transformador e ambicioso ao longo da Rio+20. Havia também os saudosos da Rio-92, que – tendo ou não vivenciado aquela Conferência – sustentavam ter sido aquele o marco de um mundo sustentável, mas que não existia esperança no contexto atual. E, logicamente, havia aqueles dedicados ao processo oficial: frequentando reuniões, lendo e relendo o rascunho do texto da Rio+20 (Draft Zero).

Gostando ou não, acreditando ou não, levantando a sua bandeira ou não, a Rio+20 tomou conta do cenário brasileiro, não somente das ONGs e dos movimentos sociais, mas também de prefeitos, governadores, empresas, imprensa e – acredito – foi tema de discussões e conversas de muitas pessoas que não participaram direta ou integralmente da Conferência, mas que, de alguma forma, acompanharam o evento.

Durante 21 dias, a equipe da 350.org participou ativamente desse cenário no Rio de Janeiro. As atividades tiveram início com uma formação de multiplicadores de vários países da América Latina, que durou quatro dias, e foi seguida pela Youth Blast, conferência de jovens que a 350.org ajudou a organizar e que provavelmente foi um dos grandes momentos de troca entre os organizadores e centenas de jovens que estavam ali para ensinar, aprender e promover ações conjuntas. A troca entre os multiplicadores acentuou a convicção de que a mudança está nas pessoas e em seu poder de trocar, doar, aprender e multiplicar.

Estimulados por essa experiência, os participantes dessa conferência colocaram em prática seu poder de mobilização e multiplicação e promoveram, em suas cidades, ações locais de conscientização sobre as mudanças climáticas e a Rio+20. A 350.org, que continuou no Rio, ficou com a missão de disseminar sua campanha pelo fim dos subsídios aos combustíveis fósseis, os quais totalizam aproximadamente um trilhão de dólares por ano em todo o mundo.

Para iniciar a campanha no Rio, a 350.org uniu-se com a Avaaz – rede de campanha global que trabalha para garantir que as visões e valores das pessoas moldem as decisões tomadas no mundo – para estender, na praia de Copacabana, uma nota gigante, representando um trilhão de dólares, com o objetivo de mostrar que a crise financeira resulta das escolhas feitas pelos governos, que beneficiam poucos em detrimento de muitos. Essa ação compôs uma campanha com mais de um milhão de assinaturas, entregues na Cúpula do G-20, no México, além de uma campanha nacional nos Estados Unidos e uma atividade global intensa no Twitter, com mais de 100 mil tweets em 24 horas, e com projeções no interior do centro de Conferência, no Rio de Janeiro (em parceria com a Casa de Cultura Fora do Eixo), assim como pelas ruas de Austrália, Estados Unidos, Índia e Inglaterra. Essa pressão em escala mundial contribuiu para a retomada da discussão sobre o tema não somente no interior da Conferência, mas também em instâncias governamentais e internacionais, com o objetivo de incrementar a pressão para acordos no âmbito do G-20 (grupo que havia se comprometido a trabalhar com o tema em 2009, mas que, até hoje, pouco avançou).

Na mesma linha, a 350.org fez parte da organização e realização dos Diálogos Intergeracionais, evento promovido pelo Instituto Marina Silva (IMAS), em parceira com diversas organizações e pessoas. A tomada, por mais de duas mil pessoas, de uma das arenas da Cúpula dos Povos, constituiu fonte de inspiração para todos ali presentes. Ainda na Cúpula, a 350.org participou de um evento promovido pela Escola de Ativismo, que discutiu os tipos de ação durante a Rio+20 e os próximos passos necessários para que a frustração atual não se repita em processos futuros.

A 350.org foi convidada a participar, com jovens de todo o mundo, de uma ação de repúdio ao texto intitulado “O futuro que queremose ao rumo das negociações. Assim como a esperança uniu os participantes do Encontro Intergeracional, a indignação uniu centenas de jovens e uma canadense de 11 anos, que luta contra os Tar Sands, projeto do governo canadense de extração de petróleo e construção de oleodutos que já está destruindo centenas de comunidades e que deve emitir quatro vezes mais CO2 na atmosfera do que uma extração convencional de petróleo.

A ação integrada teve início com a mensagem “O futuro que eles compraram” àqueles que passavam pelo Rio Centro, com o intuito de que ficassem despreocupados, pois o nosso futuro já havia sido comprado pelas maiores e mais poluidoras empresas do planeta. Para mostrar que não consideravam o texto final da Conferência representativo e forte o suficiente, todos os participantes rasgaram, juntos, uma cópia do referido documento.

Foi iniciada, então, a assembleia dos povos com os jovens, Bill McKibben e integrantes da ONG Friends of The Earth. A reunião durou quase duas horas e contou com discursos de diferentes pessoas sobre o futuro que queremos e as decisões que estavam sendo tomadas na Rio+20. Ao mesmo tempo, em uma das salas da Conferência, lideranças da sociedade civil entregaram a carta intitulada “A Rio+20 que não queremos”, com mais de 50 assinaturas – entre elas, as de Edgar Morin, Marina Silva, Kumi Naidoo e Bill McKibben. Para finalizar o protesto, foi realizada uma marcha em direção à saída da Conferência, entoando “O futuro que queremos não está aqui!”.

Assim foi finalizada a jornada da 350.org na Rio+20. Acredito que a organização logrou fazer da Conferência um momento importante, e não um fim. Apesar do sucesso do planejamento e da grande diversidade de ações promovidas, a 350.org sabe que ainda são necessárias muitas mudanças para que, em uma futura conferência, participemos juntos, lado a lado com os negociadores – e não tenhamos que sair dela por falta de representatividade. Acredito também que a Rio+20 conferiu, aos movimentos sociais e às organizações brasileiras, a grande responsabilidade de dar continuidade à busca por um mundo sustentável de forma cada vez mais unida, já que o nosso governo definitivamente não representa a diversidade e as necessidades do nosso povo.

* Diretora da 350.org Brasil.

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