PontesVolume 4Número 5 • novembro de 2008

Crise financeira global ofusca negociações comerciais


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Apesar dos avanços nas negociações comerciais da Rodada Doha, neste ano, o comércio internacional tem ficado nos últimos dois meses em segundo plano face ao clima econômico global, cada vez pior. Os governos ainda desejam finalizar a Rodada, mas, ultimamente, o foco tem sido direcionado para o fortalecimento dos sistemas bancários e financeiro mundiais, de modo a evitar uma profunda e duradoura recessão.
 
Centenas de bilhões de dólares já foram investidos, nesses últimos meses, para salvar bancos e garantir depósitos. Alguns Bancos Centrais também cortaram suas taxas de juros com a esperança de estimular o comércio; mas a verdade é que o crédito continua escasso e o mercado de ações ainda está extremamente volátil.
 
Logo após o colapso do setor bancário da Islândia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) preparou, pela primeira vez na história, um pacote de resgate para um país membro da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). A Hungria já recebeu empréstimos do FMI e Bielorússia, Paquistão e Ucrânia são exemplos de outros países que estão na fila para receber ajuda.
 
Os resultados da Rodada Doha, entretanto, ficarão mais prejudicados pelos crescentes temores de uma recessão mundial do que pelas turbulências enfrentadas pelo sistema financeiro.
 
Grandes economias temem recessão
 
Entre julho e setembro, a economia dos Estados Unidos da América (EUA) retraiu 0,3%, a maior queda de seu Produto Interno Bruto (PIB) desde 2001. Pela primeira vez em 16 anos, o PIB do Reino Unido diminuiu 0,5% durante o mesmo período. Após uma década e meia de crescimento, a economia da Espanha retraiu-se. França e Japão também enfrentam uma recessão.
 
Os principais produtores de automóveis nos EUA e na Europa operam em déficit, o setor imobiliário permanece fraco, e varejistas encontram-se à beira da falência. Os gastos dos consumidores caem drasticamente nas maiores economias mundiais e o nível de apreensão em relação ao desemprego sobe. Nos EUA, 760.000 empregados foram despedidos durante os primeiros nove meses do ano e, no Reino Unido, este número foi de 164.000 entre junho e agosto. Estima-se que o desemprego só aumente e que diversos países membros da OCDE também enfrentem esse problema.
 
A fenomenal taxa de crescimento chinesa caiu pela primeira vez em dois anos e meio, e a Índia também enfrenta desaceleração (apesar disso, ambas economias continuam crescendo a 9 e 7,5 % ao ano, respectivamente). Para esses gigantes, uma conseqüência direta da contração do mercado é a retração de suas exportações. Os centros de telemarketing indianos, por exemplo, devem cortar um quarto de sua força de trabalho e, na China, inúmeros exportadores de brinquedos já faliram. 
 
Lamy pede conclusão da Rodada
 
Os Membros da OMC tendem, a partir de agora, a considerar suas opções de liberalização comercial com base em medidas de combate à crise, afinal os países precisam manter seus empregos e suas receitas. Será que, em tempos de incerteza, os países ainda possuirão coragem política necessária para cortar subsídios de seus agricultores e pescadores, reduzir tarifas protecionistas e abrir seus setores de serviços à competição global?
 
O Diretor Geral da OMC, Pascal Lamy, acredita que sim. Em recente conferência na Universidade de Berkeley, Califórnia, Lamy assegurou que, em tempos ruins, o comércio impacta positivamente na estabilização da economia global.
 
Iniciativas de financiamento comercial
 
Apesar do positivismo de Lamy, uma série de países em desenvolvimento (PEDs) já enfrenta dificuldades para financiar suas exportações. Isto se deve, majoritariamente, à escassez de crédito comercial para seguros, garantias e remessas. Por essa razão, Pascal Lamy convocou os maiores fornecedores mundiais de crédito para uma reunião no dia 12 de novembro, para buscar soluções. O Brasil também já solicitou ao grupo de trabalho sobre comércio, dividas e finanças da OMC que apresente soluções possíveis aos efeitos da crise dos bancos (ver Pontes Quinzenal n. 18, 13 de outubro de 2008).
 
Em resposta a estas preocupações, o Banco Mundial aumentou, em outubro passado, o seu programa de comércio e finanças de US$ 1 bilhão para US$ 1,5 bilhão. O FMI, por sua vez, criou um programa de empréstimos de curto prazo para ajudar mercados emergentes a superar, temporariamente, os problemas de liquidez causados pela crise de créditos e fuga de investimentos. Países como Brasil, México e Coréia do Sul, por exemplo, poderão tomar emprestado até cinco vezes o valor de sua quota anual, sem precisar cumprir as demandas de aumento da taxa de juros e cortes dos gastos públicos.
 
Crise afeta outras áreas
 
O Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, também teme que países doadores venham a cortar seus gastos com a assistência ao desenvolvimento, o que inclui a concessão de US$16 bilhões prometidos para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas. Ban Ki-moon ressaltou que a conferência sobre Financiamento para o Desenvolvimento, marcada para o final do mês de novembro, em Doha, Qatar, será uma importante oportunidade para assegurar que a atual crise financeira não enfraqueça os compromissos de ajuda internacional. A conferência também deve reavaliar o papel do comércio para a diminuição da pobreza.
 
O combate às mudanças climáticas é mais uma área que pode ser afetada pela crise financeira. Preocupados com sua competitividade, os países membros da União Européia – líderes em redução da emissão de carbono – não sabem se devem ou não manter seus objetivos de emissão de gases de efeito estufa. Qualquer redução unilateral desses objetivos poderá ter um efeito desastroso sobre a conferência do clima que ocorre em Poznán, Polônia, em dezembro próximo, uma vez que seu objetivo é a negociação de um acordo que suceda o Protocolo de Quioto. Yvo de Bôer, chefe do secretariado da Convenção das Nações Unidas para o Clima, reconhece essas possibilidades e prevê um futuro sombrio para a proteção do clima caso estas negociações sigam os passos de insucesso alardeados para a Rodada da Doha.
 
Tradução e adaptação de artigo originalmente publicado em Bridges Monthly Trade Review Ano. 12 n. 5, out-nov. 2008.

One response to “Crise financeira global ofusca negociações comerciais”

  1. giovanna

    Apesar dos avanços nas negociações comerciais da Rodada Doha, neste ano, o comércio internacional tem ficado nos últimos dois meses em segundo plano face ao clima econômico global, cada vez pior. Os governos ainda desejam finalizar a Rodada, mas, ultimamente, o foco tem sido direcionado para o fortalecimento dos sistemas bancários e financeiro mundiais, de modo a evitar uma profunda e duradoura recessão.

    Centenas de bilhões de dólares já foram investidos, nesses últimos meses, para salvar bancos e garantir depósitos. Alguns Bancos Centrais também cortaram suas taxas de juros com a esperança de estimular o comércio; mas a verdade é que o crédito continua escasso e o mercado de ações ainda está extremamente volátil.

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