Pontes • Volume 5 • Número 2 • junho de 2009
Os cães que não ladram: a importância da cúpula do G-20 pelo que não aconteceu
Craig VanGrasstek*
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Em Estrela de Prata, de 1892, Sir Arthur Conan Doyle conta que um inspetor da Scotland Yard perguntou a Sherlock Holmes se ele gostaria de ressaltar alguma particularidade do caso sob investigação. Holmes apontou então para o “curioso incidente, ocorrido à noite, com o cão”, que guardava a casa, no local do crime. Com estranheza, o inspetor observou que o cachorro nada havia feito durante a noite, ao que Holmes replicou: “Esse foi o incidente curioso”.
Assim como o cão que não ladra de Holmes, duas coisas são notáveis sobre a cúpula do G-20 no tocante ao que não ocorreu. Uma diz respeito ao fato de nenhum dos representantes dos países-chave ter faltado. Outra, a constatação de que os Presidentes e Primeiros-Ministros reunidos não conseguiram dar um novo impulso à Rodada Doha de negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Por que é importante que todos tenham comparecido à reunião?
Aqui, são pertinentes alguns comentários sobre o passado. Nos últimos seis meses, muitos analistas têm traçado comparações entre a crise atual e a Grande Depressão da década de 1930. Ambas começaram quando o sistema de crédito de fácil acesso criou uma bolha, que destruiu o mercado de ações e acarretou uma enorme contração do comércio. Tal contração foi agravada apenas pela imposição de barreiras protecionistas por parte dos Estados Unidos da América (EUA). A Conferência Econômica de Londres, em 1933, falhou em sua missão de restaurar a confiança e cooperação, principalmente, porque o Presidente recém-eleito à época, Franklin D. Roosevelt (um democrata como Obama), em um primeiro momento, tratou da crise por meio de programas de obras públicas. Quando finalmente Roosevelt decidiu pela negociação de tratados comerciais, em 1934, já era tarde demais para que os danos fossem desfeitos.
Com isso em mente, muitos analistas alertaram que, se o crescente protecionismo não for debelado, o resultado pode ser o mesmo que provocou o aprofundamento da Grande Depressão: o surgimento de líderes extremistas e, finalmente, a deflagração da Segunda Guerra Mundial.
Se o Presidente Obama tivesse recusado o convite para a reunião de Londres ou apenas comparecido sem participar ativamente, as comparações com as conferências de 1933 teriam proliferado. O novo Presidente, contudo, usou a cúpula como sua iniciação no cenário internacional. Do ponto de vista estadunidense, o evento foi considerado uma oportunidade para que Obama demonstrasse que os EUA haviam abandonado suas políticas unilaterais. O Presidente estadunidense mostrou ao mundo que não pretende incidir nos mesmos erros cometidos por Roosevelt, em 1933, e pela administração de Bush, desde 2001.
Por que a cúpula não impulsionou a Rodada Doha?
Há meses, especula-se, em Genebra e outros fóruns, que a reunião de Londres poderia constituir a chance de os EUA e seus parceiros revigorarem as negociações multilaterais de comércio, que já enfrentaram sucessivos revezes. Esse seria o cenário perfeito para Obama sinalizar que os EUA estão prontos para resolver o impasse nessas negociações.
Essas esperanças foram fundamentadas em algo mais do que meras ilusões. Por enquanto, não há razão para crer que a política comercial da administração Obama irá resvalar ao protecionismo; o Presidente não deu sinais de que dará prioridade à liberalização comercial. Ao contrário de Roosevelt, que no final fez da liberalização um instrumento crucial de seus planos de recuperação econômica e de sua política externa, Obama parece ter calculado que, apesar de os mercados abertos serem necessários para uma economia eficiente e produtiva, as compensações são mais imediatas quando focalizadas em outras áreas. À medida que a nova administração trate dessa questão, é provável que a abordagem seja mais passiva que ativa e mais episódica do que estável.
Sob esta perspectiva é que deve ser visto o “morno” endosso ao comunicado do G-20, que meramente mencionou o comprometimento geral com a “conclusão ambiciosa e equilibrada” da Rodada Doha e a continuidade dos progressos já feitos, incluindo os obtidos com relação às modalidades. Tais compromissos estão muito aquém de um sonoro endosso, bem como de um indício da liderança dos EUA a partir de agora.
No momento, a questão é saber se e quando a administração Obama seguirá os passos de Roosevelt e fará da liberalização do comércio uma parte igualmente importante de seus planos de recuperação econômica. Talvez a recente aquisição, pela família Obama, de um cão d’água português chamado “Bo” seja um sinal de esperança. Enquanto isso, além dos latidos de Bo, o resto do mundo espera que um estridente chamado em prol do comércio seja ouvido na Casa Branca.
* Craig VanGrasstek é presidente da Washington Trade Reports e professor-adjunto da Universidade de Harvard e da Universidade de Georgetown. É consultor de governos latino-americanos e de associações de indústrias privadas desde 1985.
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