PontesVolume 5Número 2 • junho de 2009

O Brasil e os seus investimentos: quais são os impactos da crise?


by Ricardo Luiz Chagas Amorim

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A trajetória de crescimento econômico e aumento da taxa de investimento interno registrada pelo Brasil até 2008 agora esbarra em uma crise internacional de proporções incertas. Estudos preveem queda na demanda e na rentabilidade da empresa, além de maior dificuldade de acesso ao crédito. Trata-se de um quadro difícil para se justificar qualquer investimento pelos brasileiros que não aquele já em andamento, o que nos atenta para a importância do Estado neste momento.

O vigor e a capacidade de renovação do capitalismo fazem dele, ao mesmo tempo, instável – posto que está sempre em mudança – e permanente, uma vez que, nos momentos de maior crise, se renova para manter sua hegemonia. Dentro desse sistema, o investimento se coloca como a variável mais importante do ambiente estritamente econômico.

O investimento está no centro dos movimentos do capitalismo como a ferramenta básica e quantificável de seu poder. Isso fica muito claro quando se observa o pensamento e as políticas dos países latino-americanos, marcadamente o Brasil, quando do seu arranque rumo à industrialização (1930-1980). Nessa época, ganhou força o debate sobre o processo de desenvolvimento das nações mais pobres, com destaque para os estudos de Prebisch, Furtado, Lewis, Rostow, Rosenstein-Rodan, Frank, Viner, Kuznets. Todos esses autores encaravam o investimento como ferramenta transformadora da sociedade e, portanto, um grande aliado na busca pelo desenvolvimento.

O investimento é realizado para gerar mercadorias e serviços e, assim, atender às demandas da sociedade, mas seu objetivo maior do ponto-de-vista do investidor é a acumulação de capital. Seguindo essa lógica, a alocação do investimento responde às oportunidades disponíveis ou percebidas e à ausência de melhor aplicação, inclusive financeira.

Tais elementos nos ajudam a entender o comportamento dos investimentos no Brasil recente.

Trajetória dos investimentos no Brasil

O modelo de desenvolvimento que se instalou no Brasil na década de 1930, baseado na substituição de importações, concentrava os investimentos do ponto de vista (i) produtivo, em setores cuja demanda era pré-existente e atendida desde fora; (ii) regional, concentrada nas áreas em que o capital estava disponível e existia mercado consumidor; e (iii) social, segundo o qual os recursos investidos nos novos empreendimentos envolviam o capital comercial ligado ao café e o capital agrícola, ambos sem opção de aplicação frente à crise do setor exportador.

O movimento dos capitais em favor da industrialização confirmou o que a teoria econômica informava: a) os capitais precisavam ser aplicados para não se perderem; b) os investimentos foram feitos onde havia esperança de alta rentabilidade com as inovações ; c) demanda e capacidade eram desequilibradas; e d) o risco era baixo porque o Estado brasileiro criou inovações sociais e produtivas no sentido de deslocar o interesse dos capitalistas para que investissem crescentemente na indústria.

Assim, a expansão produtiva urbano-industrial voltada para o mercado interno contou com pesados investimentos do Estado. Nos anos 1950, o mesmo Estado esforçou-se para trazer um novo componente para a economia nacional: o investimento estrangeiro em plantas fabris. Com isso, formou-se o famoso tripé — capital privado nacional, capital estrangeiro e Estado — que conduziu a economia dentro do modelo substituidor de importações. Nesse modelo, com o Estado quase garantindo o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a reserva de mercado nacional aos produtores internos, os investimentos nacionais e estrangeiros tornaram-se bastante seguros, impulsionando o crescimento da renda e da produção brasileira. Mais uma vez, as expectativas de alta rentabilidade em vista das inovações e do baixo risco financeiro criaram um ambiente favorável ao investimento no país.

Na década de 1980, porém, a crise externa induzida pelo programa neoliberal de ajuste da economia dos Estados Unidos da América (EUA), acompanhada de novo aumento significativo no preço do petróleo, gerou forte impacto sobre o balanço de pagamentos. Em meio a isso, com o Estado enfraquecido pelo endividamento no exterior, o modelo de crescimento econômico baseado na industrialização e fortemente induzido pela ação do Estado começa a desmoronar, derrubando a renda per capita pela primeira vez desde a Crise de 1929.

Gráfico (ver PDF)

Assim, o Estado, que pilotara a nau do crescimento econômico durante quase 50 anos, viu-se perdendo aos poucos o controle do timão. Pior: a sociedade acusou o Estado pela crise e aceitou sua baixa como capitão do navio. A iniciativa privada passou, então, a constituir a última palavra em eficiência e, por isso, em suas mãos deveria ser deixado o destino do país.

Nos anos 1990, o Estado perdeu espaço na economia e cresceu o poder do capital. Essas mudanças deveriam, segundo os liberais, criar o ambiente propício para a retomada do crescimento e o aumento das taxas de investimento, conduzindo o país, novamente, ao progresso.

No entanto, não foi isso que se verificou. A abertura econômica, o preço muito baixo do dólar, a fraqueza tecnológica das empresas brasileiras e as crises financeiras criadas pelo capital especulativo (financeiro) criaram um ambiente em que, naturalmente, na avaliação das empresas nacionais, a eficiência marginal do capital era muito baixa, o risco financeiro elevado, as inovações vinham facilmente de fora e a relação capacidade versus demanda era incerta. Resultado: a taxa de investimento, no período, oscilou com clara tendência de queda.

O quadro só começa a mudar recentemente, com destaque a partir de 2004. Ali, duas armadilhas foram desarmadas: o baixo preço do dólar e o medo em relação ao novo presidente. Também, aos poucos, houve reorientações importantes para a economia brasileira: as privatizações foram excluídas da agenda, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) reconstituiu-se como financiador do crescimento da capacidade produtiva, ampliaram os gastos com programas sociais e previdência, aumentou significativamente o volume de crédito em relação ao PIB, entre outros. Aos impactos dessas mudanças sobre a demanda, somaram-se o bom momento das vendas ao exterior e a elevação do preço das commodities. Com isso, as empresas sentiram que sua capacidade frente à demanda já não era adequada e os riscos financeiros caíram. A taxa de investimento voltou a crescer, e o Brasil pareceu retomar o crescimento econômico.

Qual o impacto da crise sobre os investimentos brasileiros?

A trajetória vivida de crescimento econômico e aumento da taxa de investimento até 2008 parece agora esbarrar em uma crise internacional de proporções incertas. O último trimestre daquele ano apontou para queda de demanda, aumento do desemprego e precaução por parte do setor privado brasileiro. O Estado manteve seu discurso e tentou acalmar os empresários. Mesmo assim, pesquisa recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (Sensor Econômico ) mostrou que as empresas situadas no Brasil estavam apreensivas em relação ao ano de 2009.

Segundo essa pesquisa, em janeiro havia confiança de que o país cresceria acima de 1,6% no ano e os preços básicos da economia (câmbio, juros e inflação) não cresceriam. Todavia, a expectativa de queda na demanda e na rentabilidade da empresa e de maior dificuldade de acesso ao crédito configurou um quadro difícil para se justificar qualquer investimento além daquele já em andamento.

Em março, a mesma pesquisa mostrou um quadro com diferenças importantes. Em primeiro lugar, já não se acreditava no crescimento do PIB acima de 1,6%. Porém, a expectativa das empresas em relação à queda de demanda e da margem de lucros melhorou. Se antes havia forte crença no resultado ruim para esse ano, agora há dúvidas, inclusive com relação ao acesso a crédito. Além disso, o otimismo em relação aos preços básicos da economia foi mantido.

Aparentemente, hoje existe maior compreensão sobre os possíveis impactos da crise internacional sobre a economia nacional. Está claro que o país não repetirá as taxas de crescimento dos últimos anos, mas também não se espera nenhuma tragédia sobre os balanços das companhias que atuam no país. Ou seja, para 2009, o quadro, como visto pelas empresas, não oferece uma eficiência marginal do capital interessante, o risco financeiro é muito alto e a relação capacidade produtiva e demanda é, mais uma vez, incerta.

Em termos de investimento, isso permite intuir que, em 2009, não se verá o setor privado investindo significativamente. Espera-se, até mesmo, uma redução da taxa de investimento ao longo do ano, compensado, talvez, por empreendimentos do Estado. De acordo com a previsão da teoria econômica, o momento é visto de maneira negativa pelo empresário, que aguardará momento mais propício para retomar a expansão.

Contudo, é importante lembrar que os momentos de crise também são períodos de concentração do capital, nos quais grandes empresas compram ou tomam os mercados das menores. Assim, algumas companhias apresentarão crescimento do investimento em seus balanços com a compra de ativos. Esses, no entanto, não significarão expansão da capacidade produtiva do país, mas apenas troca de posse de ativos, sem implicações imediatas para os consumidores.

Exceto por esse movimento, o que se vê hoje é espera e precaução, tornando o cenário ainda mais nebuloso. Sem uma direção clara, muitos investimentos são paralisados pela inércia e expectativas incertas em relação ao futuro. Cabe, então, lembrar da história e recordar o quanto o Estado brasileiro pode ser decisivo em momentos como esse. Seu peso, importância e capacidade de legislar podem constituir a alavanca fundamental para que o Brasil não pare e, mais interessante, se lance em um projeto de renovação e reforço produtivo-industrial capaz de, ao final dos problemas internacionais, nos colocar em uma posição muito superior a qual ingressamos na crise.

* Ricardo Luiz Chagas Amorim é economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), professor-pesquisador licenciado da Universidade Mackenzie e membro da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP).

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