Pontes QuinzenalVolume 3Número 5 • 18 de março de 2008

Breves informes regionais


Acordo automotivo Brasil-Argentina em negociação Representantes dos governos e das indústrias automobilísticas brasileira e argentina reuniram-se em São Paulo, em 3 de março, para discutir um novo acordo automotivo bilateral. Apesar dos mercados aquecidos, que atraem grandes somas em investimentos, os negociadores brasileiros preparam-se para mais um embate com a Argentina. Ao que tudo indica, o Brasil deve insistir no livre comércio de automóveis e o governo argentino deve aceitar. Acredita-se que os brasileiros briguem por um acordo de prazo mais longo, de pelo menos cinco anos. O atual, acertado em 2006, vence em junho."Partida de futebol e negociação de acordo automotivo são sempre complicadas entre Brasil e Argentina", afirmou o diretor de assuntos institucionais da Ford do Brasil, Rogelio Golfarb. "O setor é muito sensível para as duas economias", diz o executivo, que dirigia a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA) quando da negociação do atual acordo há dois anos.Desde 1999, Argentina e Brasil definem previamente os termos das transações na área automobilística, em pactos com validade de um a dois anos, no máximo. "Isso não é bom para a atração de novos investimentos", afirma Miguel Jorge, Ministro do Desenvolvimento. "Que empresário fará investimento se ele sabe que daqui a um ano acaba o acordo e é preciso renegociá-lo?", completa. De fato, nos últimos anos, o acordo foi alterado várias vezes, sempre com o objetivo de atender às solicitações do lado argentino. Não houve apenas o adiamento da liberalização total do comércio, mas também a alteração do chamado índice flex, coeficiente de desvio sobre as exportações. Pela revisão estabelecida em dezembro de 2002, cada dólar importado por um dos parceiros corresponde ao direito de exportar até US$ 2,20 livres de impostos. Esse coeficiente subiria para 2,4 em 2004 e 2,6 em 2005, e deveria atingir a liberalização plena em 2006. A liberalização, entretanto, não ocorreu e a nova revisão do acordo reduziu o índice flex para 1,95, diminuindo a parcela do intercâmbio isenta de impostos.Um novo acerto deve prorrogar por mais cinco anos a isenção de tarifas de importação mediante alguns limites. Os sócios do Mercosul já deixaram claro, no entanto, que não irão se comprometer com o livre comércio no fim desse período. Como há consenso entre os brasileiros de que o livre comércio será mais uma vez rechaçado, restará a briga pela maior extensão do índice flex e por um acordo mais duradouro. A missão dos brasileiros que participam das negociações é tentar expandir o flex. A dos argentinos é apertar mais."Precisamos recuperar a indústria de autopeças da Argentina que migrou para o Brasil na década de 90", disse o Secretário de Indústria da Nação do Governo Argentino, Fernando Fraguío, após a reunião bilateral do comitê automotivo. Ele atribuiu a crise na indústria de autopeças do país aos incentivos fiscais concedidos pelos estados brasileiros no contexto da guerra fiscal, bem como às políticas econômicas de antigos governantes da Argentina. Para os fabricantes de autopeças brasileiros, não há escala no país vizinho que justifique gastos significativos. "Investimento não acontece por decreto. Só se houver incentivos", afirmou Antônio Carlos Meduna, do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças).O comércio de autopeças é hoje o maior responsável pelo desequilíbrio da balança comercial dos dois países, apesar da recuperação do consumo, da produção e da exportação argentina de veículos. Segundo o governo argentino, o país registrou déficit de US$ 1,4 bilhão com o Brasil em autopeças em 2007, mas há divergências sobre os dados. De qualquer forma, o prejuízo para os argentinos é crescente. Em 2005, o déficit era de US$ 420 milhões e em 2006, US$ 910 milhões. De acordo com Juan Cantarella, gerente geral da Associação de Fábricas Argentinas de Componentes (ANFAC), a indústria local responde por 32% das autopeças consumidas no país. Ele diz que o percentual é "muito pequeno" e que a produção argentina cresceu em valores absolutos, mas não em participação relativa. Ele considera o setor de autopeças o maior problema do comércio bilateral. Segundo Fernando Canedo, diretor-executivo da Associação de Fábricas de Automotores da Argentina (ADEFA), o governo argentino deseja estabelecer um período de transição antes do livre comércio para equilibrar sua balança comercial no setor de autopeças. "O importante é que se estabeleça uma data de quando se vai alcançar o livre comércio e que se faça da forma mais rápida possível". Segundo ele, as montadoras argentinas devem propor o livre comércio para daqui a três anos. "Seriam três anos de transição, com comércio administrado, e, a partir de 2011, o livre comércio".O setor de autopeças deve gerar um dos principais impasses nas negociações. No ano passado, pela primeira vez, a Argentina foi a maior cliente das fabricantes brasileiras, ultrapassando os Estados Unidos da América, por anos o principal consumidor do produto nacional. Também não será tarefa fácil convencer a indústria de autopeças a produzir na Argentina. Tecnicamente, estabelecer flex apenas para autopeças é complicado. O secretário Fraguío reconheceu que os investimentos devem ser "voluntários", mas espera ajuda "efetiva" do Brasil. A negociação não chegou a esse ponto, mas uma fonte experiente enumera algumas possibilidades: (i) o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderia financiar empresas de autopeças brasileiras que investissem na Argentina; (ii) o Brasil não reclamaria de medidas pouco ortodoxas dos argentinos de apoio à indústria; ou ainda (iii) seriam criados "dispositivos inteligentes" no acordo para estimular a produção.Redação equipe PontesFontes consultadas:A Tarde. "Acordo automotivo com Argentina volta a ser discutido" (03/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428177>. Acesso em: 13 mar. 2008.Folha de São Paulo. "Acordo com Argentina terá prazo ampliado" (04/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428389>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Estado de São Paulo. "Acordo automotivo volta a ser discutido" (03/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428225>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Estado de São Paulo. "Carros encalhados" (05/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428845>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Estado de São Paulo. "Queremos um acordo de longo prazo" (03/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428228>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Globo. "Brasil e Argentina negociam novo acordo automotivo" (04/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428384>. Acesso em: 13 mar. 2008.Valor Econômico. "Argentina quer novos investimentos para renovar acordo" (04/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=428292>. Acesso em: 13 mar. 2008. .Economias emergentes estão mais fortes contra a crise Os países emergentes, especialmente aqueles da América Latina, estão mais bem preparados para enfrentar uma eventual desaceleração mundial e poderão ajudar a sustentar a economia global nos próximos anos, no caso de um desaquecimento econômico dos Estados Unidos da América (EUA). Essa foi uma das principais conclusões do encontro anual do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, sigla em inglês), ocorrido no Rio de Janeiro nos dias 6 e 7 de março. A entidade, sediada em Washington, reúne mais de 370 empresas do setor financeiro em 65 países.O IIF elevou a estimativa de investimentos privados nos países emergentes em 2007 de US$ 620 bilhões para US$ 782 bilhões. O instituto também anunciou que, em 2008, o volume deverá ser de US$ 731 bilhões, mesmo no caso de uma crise estadunidense - uma cifra "formidável", segundo Josef Ackerman, chairman do Deutsche Bank.Durante entrevista coletiva, os diretores do IIF apresentaram o relatório "Fluxos de Capital para os Mercados Emergentes", divulgado duas vezes por ano. Em quase todos os aspectos, houve surpresas positivas e as estimativas do último relatório (outubro de 2007), realizadas no calor da crise das hipotecas subprime nos EUA, revelaram-se demasiado pessimistas.Segundo o IIF, o fluxo de capitais privados para mercados emergentes foi recorde no ano passado, ultrapassando em mais de US$ 200 bilhões o montante registrado em 2006. Para este ano, as previsões indicam uma pequena redução no fluxo, para US$ 731 bilhões, o que ainda assim representa um volume expressivo se considerada a desaceleração da economia global. Dos US$ 780 bilhões estimados para 2007, a região da América Latina atraiu US$ 129,4 bilhões, dos quais US$ 79,5 bilhões ficaram com o Brasil - volume que representa um salto em relação aos US$ 11,2 bilhões atraídos pelo país no ano de 2006. Para 2008, a previsão é de que a América Latina receba praticamente o mesmo volume, US$ 129,3 bilhões, sendo menor a previsão no caso do Brasil - US$ 70,5 bilhões. Na opinião de Yusuke Horiguchi, economista do IIF, isso deve-se ao volume "excepcional" do ano passado, o que eleva a base de comparação. Como um dos fatores de redução do fluxo, ele destacou a queda no número de IPOs (sigla em inglês para oferta pública de ações). "Os meses de janeiro e fevereiro confirmam que o mercado de IPOs perderá força ao longo do ano", disse. Se comparada a outros mercados emergentes, a América Latina foi a região que mais apresentou aumento percentual no fluxo de entradas - mais de 176%. Os mercados emergentes da Europa, que lideram a atração de recursos, registraram crescimento de 54,4% no fluxo, de US$ 236,4 bilhões em 2006 para US$ 365,2 bilhões, sendo a estimativa para 2008 de US$ 332,9 bilhões. Já os mercados asiáticos devem continuar atraindo menos capitais, com uma estimativa de US$ 227,5 bilhões para 2008, face aos US$ 249,8 bilhões registrados em 2007 e US$ 258,3 bilhões em 2006.Francisco González, do Banco Bilbao Vizcaya (BBVA), afirma que a América Latina apresenta o cenário mais favorável de sua história recente, especialmente porque as preocupações com crises externas, constantes na década passada, não são mais tão expressivas. Para Ackerman, a América Latina ganhou maior importância no cenário internacional em virtude da melhora dos fundamentos econômicos dos países da região. O primeiro vice-presidente do IIF, William Rhodes, alertou que o resultado pode ser modificado caso o preço das commodities venha a cair. Contudo, ele fez questão de elogiar as reformas institucionais e os ajustes macroeconômicos promovidos pelo Brasil nos últimos anos, medidas que permitiram, por exemplo, o aumento das reservas internacionais e a redução do déficit em conta corrente do país. As reservas internacionais brasileiras já passam dos US$ 190 bilhões, valores inéditos na história do país.Várias manifestações salientaram a mudança do papel representado pelas economias emergentes. Segundo Ackerman, "é fascinante notar que, enquanto o IIF tantas vezes teve como preocupação central, ao longo dos últimos 25 anos, as crises nos países emergentes, graças ao tipo de política econômica consistente que vemos aqui no Brasil, muitas economias emergentes estão fortalecidas, enquanto as mais sérias mazelas se encontram em algumas das principais economias industrializadas do mundo". Redação Equipe PontesFontes consultadas:Folha de São Paulo. "Citi descarta ‘descolamento’ de emergentes" (07/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=430100>. Acesso em: 13 mar. 2008.Folha Online. "América Latina apresenta cenário mais favorável de sua história recente, diz IIF" (06/03/2008). Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u379388.shtml>. Acesso em: 13 mar. 2008.Gazeta Mercantil. "Emergentes recebem capital recorde" (07/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=430258>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Estado de São Paulo. "Brasil vai crescer 5,5% e virar locomotiva mundial" (07/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=429888>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Estado de São Paulo. "Emergentes devem receber US$730 bi este ano, diz IIF" (07/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=429885>. Acesso em: 13 mar. 2008.O Globo. "Banqueiros dizem que AL está mais forte" (07/03/2008). Disponível em: <http://www.mre.gov.br/portugues/noticiario/nacional/selecao_detalhe3.asp?ID_RESENHA=430169>. Acesso em: 13 mar. 2008. .