Pontes Quinzenal • Volume 3 • Número 23 • dezembro de 2008
Conversão de florestas tropicais para produção de biocombustíveis é prejudicial ao meio ambiente
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Desmatar florestas para plantar sementes que servem de matéria-prima aos biocombustíveis pode implicar em maiores danos em termos de mudanças climáticas (MCs) e biodiversidade no contexto da preservação do ecossistema. Foi esta a conclusão de recente estudo publicado na revista acadêmica Biologia da Conservação. Segundo o relatório, serão necessários entre 75 e 93 anos para que algum benefício seja percebido.
Os biocombustíveis têm sido freqüentemente apontados como alternativa ambiental aos combustíveis fósseis. Porém, o debate acerca dos aspectos negativos ao meio ambiente do cultivo em larga escala de plantas como palma, soja e cana-de-açúcar para a produção de combustível tem crescido nos últimos anos (Ver Bridges Trade BioRes, 06 out. 2006, http://ictsd.net/i/news/biores/9061).
Divulgado na abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Poznan, o estudo busca contestar certas iniciativas de mitigação de emissões que norteiam a produção de biocombustíveis em países tropicais. Os autores do relatório ressalvam que os esforços dos países desenvolvidos (PDs) para cumprir suas obrigações sob o Protocolo de Quioto têm impactos negativos sobre o meio ambiente de países em desenvolvimento (PEDs).
Principal autor do estudo, Finn Danielsen, da Agência Nórdica Dinamarquesa para o Desenvolvimento e Ecologia (NORDECO, sigla em inglês), declarou que os países da Europa e América do Norte concedem subsídios à compra de biocombustíveis para reduzir suas emissões a partir do transporte. Com isso, esses países estimulam PEDs a aumentarem suas emissões, bem como a descumprirem as metas estabelecidas em outro acordo, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB).
Para chegar às conclusões, o time de botânicos, ecologistas e engenheiros baseou-se em estudos publicados e empreendeu pesquisa de campo em florestas e campos de óleo de palma na Indonésia. A World Wild Fund (WWF), ONG envolvida no projeto, afirmou que o estudo representa a análise mais abrangente do impacto das plantações de óleo de palma em florestas tropicais para as MCs e a biodiversidade.
O time de pesquisadores também concluiu que a conversão das florestas tropicais causa diminuição das espécies de plantas e animais. A botânica Hendrien Beukema, da Universidade de Groningen, Holanda, afirmou que grandes grupos vegetais comuns nas florestas estão totalmente ausentes nas plantações, pois as plantas de florestas precisam de um habitat coberto e protegido para sobreviver. Em relação à fauna, o estudo revela que apenas uma em cada seis espécies da floresta é capaz de sobreviver num ecossistema de plantação.
Uma vez que o estudo foi conduzido primariamente no Sudeste da Ásia, onde a palma é a matéria prima preferida para a produção de biocombustível, os autores alertam que outras regiões também estão ameaçadas. Faizal Parish, do Centro Global do Ambiente, ONG baseada na Malásia, declarou que as florestas da América Latina são derrubadas para a produção de soja, ainda menos eficiente para a produção de biocombustível do que o óleo de palma.
Os autores do relatório defendem que a redução do desmatamento constitui meio mais efetivo de combater as MCs, além de ajudar os países a cumprirem seus compromissos de proteção à biodiversidade. O estudo pede mais comprometimento por parte dos países para o desenvolvimento de padrões globais comuns para a produção sustentável de biocombustíveis.
Apesar de lançar críticas severas contra as iniciativas de conversão das florestas tropicais, o estudo concluiu que a plantação de sementes para a produção de biocombustíveis em áreas de pastagem poderia levar a uma redução de carbono em 10 anos.
Tradução e adaptação de artigo originalmente publicado em Bridges Trade BioRes, Vol. 8, No. 22, 15 dez. 2008.
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