Pontes QuinzenalVolume 4Número 9 • maio de 2009

África na fronteira dos investimentos internacionais


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A crise econômica mundial tem acentuado a tendência de replanejamento no mercado de investimentos internacionais, especialmente nos países em desenvolvimento (PEDs). Nesse contexto, a África se destaca como uma nova fronteira.

Embora os investimentos no continente africano concentrem-se no setor de matérias-primas, áreas como tecnologia da informação e infra-estrutura são promissoras. Tais transformações foram favorecidas por políticas locais de suporte a empresas estrangeiras – a exemplo da criação de Agências de Fomento a Investimentos –, bem como políticas de aprimoramento da imagem dos países africanos frente aos investidores.

Gana e Botsuana são exemplos desses esforços. O primeiro país foi apontado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como um dos que mais atuou na redução das assimetrias sociais. Por sua vez, um estudo do Banco Mundial, publicado em 11 de maio, destacou o desempenho de Botsuana em termos de investimentos. Mesmo no contexto da crise, o país aumentou em 140% sua pontuação em relação ao estudo anterior, o que indica o sucesso dos mecanismos domésticos de promoção aos investimentos.

Interesses asiáticos no continente

A Ásia certamente foi o continente que realizou aportes mais significativos na África durante a última década. Em 2004, a Índia – país que sempre manteve relações próximas com a Àfrica – registrou incremento comercial de 32,34% com o continente. Em 2003, criou um programa de fomento ao intercâmbio bilateral denominado “Focus: África” e, em 2008, celebrou um Tratado Comercial Preferencial com os países da União Aduaneira da África Austral (SACU, sigla em inglês).

De acordo com analistas internacionais, o principal interesse da Índia na África é obter fontes suplementares de energia para sua economia, em constante crescimento. Por sua vez, o país asiático pode oferecer tecnologia a baixo custo para a produção de medicamentos e financiamento para projetos locais, como a linha de crédito de US$ 640 milhões concedida para a indústria açucareira da Etiópia.

Por seu vez, a China tem buscado ampliar suas parcerias no continente por meio de investimentos diretos e tratados comerciais. Ao todo são mais de 40 tratados e 22 acordos de financiamento. Para gerenciar os programas de fomento, o governo chinês criou a Agência de Desenvolvimento Sino-Africano, a qual deverá receber ainda neste ano US$ 2 bilhões oriundos do Banco de Desenvolvimento da China. Os projetos beneficiados enquadram-se em áreas diversas, tais como agricultura – cujos principais países destinatários são Etiópia, Malaui e Moçambique – e indústria – com foco em Egito, Gana, Ilhas Maurício, Nigéria e Zimbábue, sendo que para este último estão previstos investimentos de pelo menos US$ 143 milhões para construção de uma usina de geração de energia na cidade de Kpone.

Rússia na África

A princípio concentrados na região da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), os investimentos russos têm sido redirecionados, desde década de 1990, em vista das perspectivas de crescimento econômico e acesso a mercados na África. A Alrosa, empresa estatal russa de mineração, estabeleceu-se em Angola, em 2007, ao passo que grandes metalúrgicas e petrolíferas têm adquirido paulatinamente parcelas significativas no mercado africano. A título ilustrativo, a petrolífera Sintezneftegas adquiriu 70% do mercado namíbio. À parte das empresas do setor extrativista, instituições financeiras e empresas de telecomunicações também têm sido atraídas para o continente.

Oportunidades para empresas brasileiras

O Ministério Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) vem adquirindo relevância crescente na prospecção de novos mercados para os produtos brasileiros. Exemplo disso é a multiplicação de missões empresariais (ver, neste número, “Brasil busca aprofundar relações comerciais com a China”) sob coordenação do Ministério.

Particularmente na África, tais iniciativas são relevantes, sobretudo, do ponto de vista de conscientização do empresariado brasileiro, que está percebendo a potencialidade do continente além-mar. Empresas como Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Petrobrás e Vale já se estabeleceram na África ou atuam por meio de joint-ventures e parcerias. Mais recentemente, empresas brasileiras do setor de tecnologia da informação instalaram-se em países africanos para produção e comercialização no mercado local.

Parece haver a expectativa, no empresariado, de que a redução da lacuna de conhecimentos técnicos sobre a África ocorra mediante planejamento prévio e canais de comunicação com potenciais investidores. Tais medidas, associadas a políticas de desenvolvimento, oferecem, no médio e longo prazos, condições propícias para o fortalecimento das relações comerciais Brasil-África.
Atualmente, encontram-se em fase de negociação contratos envolvendo empresas do setor de infra-estrutura e mineração, o que aponta para o provável aumento no intercâmbio de mercadorias, bem como para a intensificação do fluxo de investimentos estrangeiros diretos em direção à África. Isso poderá beneficiar não somente empresas que optem por se instalar no território, mas também exportadores brasileiros que assistiram, nos últimos sete anos, à triplicação do número de remessas para o continente africano.

Reportagem Equipe Pontes

Fontes Consultadas:

Africa News. Botswana tops investment league (18/05/2009). Disponível em: . Acesso em 19 mai. 2009.

BBC News. India pledges african investments (8/05/2008). Disponível em: . Acesso em: 19 mai. 2009.

Chinese Economic Review. China-Africa fund to receive new capital ahead of schedule (17/03/2009). Disponível em: . Acesso em: 19 mai. 2009

Deutsche Bank. Russia’s outward investment (30/04/2008). Disponível em: . Acesso em: 19 mai. 2009.

International Finance Group. Global Investment Promotion Benchmark 2009 (11/05/2009). Disponível em: . Acesso em: 20 mai. 2009.

UNCTAD. Asian Foreign Direct Investment in África: Towards a New Era of Cooperation Among Developing Countries (27/03/2007). Disponível em : . Acesso em: 19 mai. 2009.

Valor Econômico. Companhias basileiras de TI começam a investir na África (5/01/2009). Disponível em: . Acesso em: 20 mai. 2009.

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