Pontes Quinzenal • Volume 4 • Número 9 • maio de 2009
Brasil busca aprofundar relações comerciais com a China
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A visita do Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, à China, ocorrida entre os dias 18 e 20 de maio, representa mais um passo rumo ao estreitamento dos laços comerciais entre os dois países. Apesar de apresentar fundo político, a motivação da visita foi eminentemente econômica, uma vez que um de seus objetivos principais era a abertura do mercado chinês à carne de frango e à carne suína exportadas pelo Brasil. Além disso, a viagem de Lula marca o início de uma maior atuação, no Brasil, do Banco de Desenvolvimento Chinês (BDC).
A visita ocorreu em momento de intensificação do comércio bilateral, intensificação esta que se dá mesmo face à retração do comércio internacional em decorrência da crise econômica atual. Em abril, a China tornou-se a primeira parceira comercial do Brasil, superando os Estados Unidos da América (EUA), principal destino dos produtos brasileiros nos últimos oitenta anos.
Aproximação contínua entre os dois países
O estabelecimento das relações diplomáticas entre Brasil e China, em 1974, deu início à aproximação política e econômica bilateral. A partir da década de 90, as mudanças no cenário internacional possibilitaram que Brasil e China defendessem os interesses dos países em desenvolvimento (PEDs) em diversos fóruns, tais como a Organização das Nações Unidas (ONU). Exemplo emblemático disso constitui o apoio da China ao assento brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, bem como o posicionamento de ambos os países contra as medidas protecionistas dos países desenvolvidos (PDs) perante a Organização Mundial do Comércio (OMC). A entrada da China na referida organização, em 2001, foi largamente apoiada pelo Brasil. No contexto da crise econômica global, é destacável a atuação sino-brasileira no G-20, reflexo do papel cada vez mais relevante que desempenham os dois países na governança internacional.
Ao alinhamento político, sucedeu o crescimento acelerado do comércio: na década de 90, o volume de comércio bilateral era de US$ 1,494 bilhão; em 2001, atingiu a cifra de US$ 3,698 bilhões e, em 2003, US$ 6,6 bilhões. Após a primeira visita de Lula à China, ocorrida em 2004 – a qual contou com uma comitiva que incluía mais de 400 empresários brasileiros –, o comércio bilateral recebeu novo impulso, chegando a movimentar US$ 36 bilhões em 2008.
Em 2008, foi enviada a Macau uma missão de empresários brasileiros chefiada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) (ver Pontes Quinzenal, Vol. 3, No. 14, 21 jul. 2008, disponível em: ). Naquela ocasião, o MDIC apontou o país asiático como o mercado estratégico mais relevante para o Brasil. Esta foi a conclusão da “Agenda China”, estudo realizado pelo MDIC sobre as necessidades comerciais chinesas, em comparação à oferta de produtos brasileiros. A Agenda China estabeleceu, basicamente, duas metas: triplicar as exportações brasileiras para a China até 2010 e atrair mais investimentos chineses para o Brasil. Segundo o estudo, estes resultados devem ser atingidos por meio da diversificação das exportações e pela venda de produtos de maior valor agregado.
Perspectivas
A abertura do primeiro Centro de Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), em 19 de maio, assinala novas perspectivas para a inserção das exportações brasileiras no mercado chinês. O novo Centro de Negócios auxiliará na internacionalização das empresas brasileiras, prospecção de mercado e distribuição de produtos. Segundo Alexandre Teixeira, presidente da Apex, a iniciativa proporcionará o “uso inteligente de informações para criar espaço para produtos brasileiros nos mercados prioritários”. Neste sentido, a Apex pretende se utilizar do estudo, publicado em abril, em que analisa profundamente o mercado asiático da moda, uma de suas apostas (ver Pontes Quinzenal, Vol. 4, No. 8, disponível em: ).
No tocante aos investimentos chineses no Brasil, a tendência é de crescimento. Os bancos chineses – capitalizados mesmo no contexto da crise econômica global – encontram-se em processo de internacionalização de suas atividades. A inauguração da primeira agência do BDC no país assinala sua disposição em financiar bancos nacionais (ver Pontes Quinzenal, Vol. 4, No. 6, disponível em: ), o que contribuirá para o aumento da oferta de crédito no mercado brasileiro.
Desfecho da visita de Lula
Muito embora a recente visita do Presidente Lula não tenha correspondido às expectativas dos empresários brasileiros, se considerarmos o nível atual de intercâmbio comercial bilateral, houve progressos. A imediata abertura do mercado da China à carne de frango brasileira pode ser considerada a maior conquista comercial da visita. Ademais, o contrato de financiamento, formalizado entre o BDC e a Petrobrás, no valor expressivo de US$ 10 bilhões, atesta o interesse chinês em realizar investimentos no Brasil. Em razão do financiamento, a estatal brasileira deverá fornecer 150 mil barris de petróleo/dia neste ano e 200 mil barris/dia a partir de 2010 à petrolífera estatal chinesa, Sinopec. Durante a visita, foi também reforçada a proposta brasileira de realizar o comércio entre os dois países utilizando suas respectivas moedas, ao invés do dólar estadunidense (ver Bridges Weekly Trade News Digest, Vol. 13, No. 18, disponível em: ).
Apesar dos progressos, a diminuição do porte da comitiva brasileira de 500 para 100 integrantes, assim como o cancelamento repentino da presença do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central apontam para a necessidade de maior cautela nas negociações do Brasil com a China. Segundo Titus Liu, gestor de negócios da Câmra Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE), tais alterações prejudicam a construção de uma relação de longo prazo com o país asiático. “O Brasil não deveria apresentar essa postura, sobretudo neste momento em que a China é o nosso maior parceiro comercial. Hoje nós precisamos mais deles, do que eles de nós”. Em sua opinião, para que as relações comerciais sino-brasileiras evoluam nos próximos anos, “cabe ao Brasil investir de forma mais pró-ativa nas relações com a China para mudar a maneira como somos vistos naquele país”. Liu ressalva como fator fundamental compreender a cultura chinesa, já que “os negócios no oriente são feitos de maneira diferente da que estamos acostumados a fazer com os países do ocidente”.
Reportagem Equipe Pontes
Fontes Consultadas:
Apex. Apex-Brasil inaugura Centro de Negócios na China. (14/05/2009). Disponível em: . Acesso em: 16 mai. 2009.
CBCDE. Parceria Brasil-China. Visão estratégica – Brasil-China: cada vez mais próximos. Mai. 2004, Ano II, número especial.
CBCDE. Visita de Lula à China assinala 35 anos de elo diplomático. (17/05/2009). Disponível em: . Acesso em: 18 mai. 2009.
MDIC. Governo lança estratégia para ampliar relações com o mercado chinês. (03/07/2008). Disponível em: . Acesso em: 16 mai. 2009.
Valor Econômico. Visita de Lula poderá abrir mercado chinês para frango e suínos (11/05/2008). Disponível em: . Acesso em: 13 mai. 2009.
One response to “Brasil busca aprofundar relações comerciais com a China”
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Artigo muito bom. Realmente, a aproximação com a China é importante, o comércio se intensifica, bem como as relações políticas. Mas, por favor, afirmações como “hoje nós precisamos mais deles, do que eles de nós” parecem retomar o antigo complexo de vira-latas. Eles também precisam de nós, tanto é que assinaram um contrato com a Petrobras para receber 200 mil barris/dia. Para a empresa é um ótimo negócio, pois tem acesso aos recursos que diz precisar para explorar o pré-sal. E, ainda, em termos políticos, a China é que deveria fazer o possível para ter a sua imagem melhorada no Brasil, por todos os abusos cometidos pelo regime comunista chinês contra o meio ambiente e os direitos humanos. Defender que o Brasil se porte com altivez nas negociações internacionais (logo, desclassificar comentários como os citados) é imprescindível a um país que se quer respeitado por seus pares na cena mundial.