Pontes Quinzenal • Volume 4 • Número 11 • junho de 2009
Primeira cúpula dos BRIC: economias emergentes pressionam por influência global
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Brasil, Rússia, Índia e China – grupo de países conhecido pela sigla BRIC – expressaram interesse em se tornar atores centrais na política econômica global na primeira cúpula do grupo, realizada em 16 de junho. Por outro lado, os representantes desses países esquivaram-se de tratar do futuro do dólar como a principal moeda utilizada para a constituição de reservas cambiais no mundo.
“As economias emergentes e em desenvolvimento devem ter maior voz e representação nas instituições financeiras internacionais”, anunciaram os representantes dos BRIC em comunicado conjunto. “Nós também acreditamos que é preciso um sistema monetário internacional estável, previsível e mais diversificado”.
Os BRIC defendem a mesma posição no que diz respeito à reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo Arkady Dvorkovich, principal assessor econômico da Presidência russa. O grupo de países espera expandir o volume de capital dos Direitos Especiais de Saque (SDRs, sigla em inglês), moeda escritural do FMI, composta por uma cesta de moedas, por meio da inclusão do yuan, do rublo, dos dólares canadense e australiano e do ouro. O FMI planeja a revisão da cesta de moedas dos SDRs em novembro de 2010.
Na reunião, China, Rússia e Brasil prometeram investir pesadamente no FMI a fim de desfrutar de maior influência dentro da instituição regulatória financeira. O poder de voto no FMI é determinado pelo montante da cota do país ou por seu investimento em SDRs. Atualmente, o Brasil possui 1,4% de poder de voto; a Rússia, 2,7%; a Índia, 1,9%; e a China, 3,7%.
O primeiro ministro da Índia, Manmohan Singh, encorajou as demais lideranças do BRIC a implementar as medidas de curto prazo debatidas na reunião do G-20 com vistas a tratar da crise financeira global. Nesta ocasião, os líderes do BRIC emitiram uma declaração conjunta destacando as propostas para responder à crise (ver Pontes Quinzenal, Vol. 4, No. 5, 30 mar. 2009, ). A primeira declaração conjunta do BRIC na reunião do G-20 gerou expectativa quanto à forma com que as quatro maiores economias emergentes continuariam a afirmar seu poder.
A reunião mais recente dos BRIC foi menos controversa: a declaração conjunta omitiu a proposta russa de reduzir a dependência em relação ao dólar como moeda de referência mundial. “A economia mundial não deve permanecer presa – tão direta e desnecessariamente – às vicissitudes de uma única grande potência mundial”, afirmou o ministro brasileiro de assuntos estratégicos, Roberto Mangabeira Unger. Como força-motriz da reforma política promovida pelo grupo, a Rússia sugeriu que se adotasse uma nova moeda referencial mundial, mas recentemente se esquivou dessa medida. “Concordamos que a última coisa de que precisamos agora é uma turbulência nos mercados financeiros”, declarou Dvorkovich durante entrevista à imprensa na terça-feira passada.
Mas os países planejam investir nas economias dos países do grupo, mesmo na ausência de uma posição comum a respeito do dólar. Segundo Dvorkovich, esperava-se que os líderes do BRIC discutissem a possibilidade de investir suas reservas nas moedas dos demais integrantes do grupo, estabelecer comércio bilateral por meio de suas moedas domésticas ao invés do dólar e desenvolver contratos de swap cambial.
A nova moeda referencial para a constituição de reservas no mundo constitui uma ilustração das opiniões divergentes dentro deste grupo diverso. Rússia e Brasil, as menores economias dos BRIC, têm sido as maiores defensoras da continuidade do debate. A China – que detém US$ 1 trilhão em dívidas dos Estados Unidos da América (EUA) – omite-se quanto ao tema, pois reluta em tomar medidas que possam ameaçar o valor de suas reservas. O tema é menos importante para a Índia, cujo sistema financeiro depende em menor medida do comércio internacional e mais de seu mercado doméstico. No entanto, a Índia também tem hesitado no que diz respeito à ruptura com o sistema baseado no dólar.
Além disso, os BRIC possuem interesses econômicos diferentes. A China, cujo Produto Interno Bruto (PIB) corresponde à soma do PIB dos outros três integrantes do grupo, depende fortemente de exportações aos EUA e à Europa. China e Índia possuem grandes reservas de mão-de-obra; Rússia e Brasil apresentam reservas abundantes de recursos naturais. Disso resulta que a China prefere preços de recursos naturais – por exemplo, o petróleo – mais baixos, enquanto Rússia e Brasil têm interesse em manter o preço destes recursos elevado.
“Entre os BRIC, há pouco em comum”, disse Yevgeny G. Yasin, chefe de pesquisa na Escola Superior de Economia de Moscou. “Cada um desses países possui seu destino próprio … e será muito mais difícil que concordem entre eles, do que separadamente com países ocidentais”. No entanto, de acordo com Qin Yaqing, vice-presidente da Universidade de Assuntos Estrangeiros da China, localizada em Pequim, as partes buscarão cooperar na medida do possível. “A cooperação parcial é possível, e uma reunião como esta permitirá que estes países ampliem suas posições comuns”.
Juntos, os países que constituem o grupo BRIC respondem por 15% da economia mundial e a 12% do volume comercial e, em 2008, contribuíram para mais de 50% do crescimento da economia mundial; além disso, compreendem 42% da população mundial. Os líderes dos BRIC voltarão a se encontrar em 2010, no Brasil.
Tradução e adaptação de texto originalmente publicado em Bridges Weekly Trade News Digest, Vol. 13, No. 22 - 17 jun. 2009.
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