Pontes QuinzenalVolume 2Número 3 • abril de 2007

Mudanças climáticas podem gerar fome, racionamento de água e extinção de espécies, alertam cientistas


De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), o mundo enfrentará aumento da fome, racionamento de água e extinção de espécies; sendo que os mais pobres e vulneráveis serão os mais atingidos. Uma análise regional do relatório afirma que a América do Norte sofrerá cada vez mais furacões, enchentes, secas, ondas de calor e queimadas, enquanto a Ásia enfrentará enchentes e avalanches maciças. Lançado no último 6 de abril, em Bruxelas, o relatório também prevê o desaparecimento dos Alpes glaciais na Europa.

Logo após a divulgação do relatório, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, afirmou que a Organização deve promover um encontro de alto nível sobre mudanças climáticas em setembro, juntamente com a Assembléia Geral. Uma reunião deste porte poderia impulsionar o lançamento das negociações de acordos sobre futuras mudanças climáticas, cujas discussões devem ocorrer em dezembro deste ano, sob os auspícios da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas.

Evidências mostram que mudanças climáticas já estão ocorrendo

O relatório do IPCC, intitulado "Impactos das mudanças climáticas, adaptação e vulnerabilidade" é o segundo de uma série de quatro relatórios que examinam os efeitos das mudanças climáticas globais. Os quatro documentos deverão ser finalizados até o fim deste ano. O primeiro relatório - uma visão geral sobre o aquecimento global - foi publicado em fevereiro de 2007 e concluiu que há fortes evidências, ou pelo menos 90% de certeza, de que a humanidade é a grande culpada pela maior parte das razões que levaram ao aquecimento global, na segunda metade do século passado (Ver Bridges Trade BioRes, v. 7, n. 2, 2 de fevereiro de 2007).

O novo relatório mostra que as mudanças climáticas já estão ocorrendo e que têm causado impactos profundos em todos os continentes. Fundamentado em mais de 30.000 dados e evidências oriundas de mais de 700 estudos internacionais sobre mudanças dos ecossistemas, o relatório apresenta detalhes importantes sobre o aumento do volume de lagos glaciais; a chegada prematura da primavera, que faz com que plantas desabrochem fora de época e que pássaros mudem seus padrões de migração; a transferência do habitat de plantas e animais para regiões montanhosas e de altas latitudes, onde o clima é mais ameno; entre outros.

O relatório conclui que os padrões de aumento da temperatura global e das mudanças ambientais são consistentes com as previsões mais antigas sobre modelos climáticos.

Qual deve ser a linguagem diplomática das evidências científicas?

O relatório foi adotado após vários dias de negociação e revisão das minutas por representantes de Estados e cientistas de mais de 131 países. Os participantes somente conseguiram concordar em relação a um texto final após uma sessão que durou a noite toda, quando partes inteiras do texto inicial foram retiradas da minuta. Alguns negociadores questionavam a credibilidade científica de afirmações-chave contidas no relatório, ao passo que os cientistas argumentavam que as alterações realizadas no texto minimizavam a mensagem que a pesquisa científica buscava transmitir. Os Estados Unidos da América (EUA), China e Arábia Saudita levantaram a maior parte das objeções ao texto, e seguidamente tentaram minimizar o tom de certeza das previsões do relatório. Negociadores e cientistas discordaram, por exemplo, acerca de uma afirmativa de que o impacto das mudanças climáticas já podia ser observado em todos os continentes e na maior parte dos oceanos. A discussão foi superada por um compromisso de retirarem qualquer referência que prejudicasse a relação de confiança. De acordo com Rajendra Pachauri, membro do IPCC, tratou-se de um exercício complexo.

Ainda assim, o relatório traz uma forte mensagem de que as mudanças climáticas serão a maior fonte de dificuldades sociais e ambientais em todas as regiões do mundo. De acordo com Yvo de Boer, principal representante da ONU para questões climáticas, o relatório final deixará uma mensagem bastante clara aos governos.

Mudanças climáticas afetarão todas as regiões do mundo e os mais pobres serão os mais atingidos

Pela primeira vez, os cientistas focaram suas previsões nas diferentes regiões do mundo, com o alerta de que as mudanças climáticas afetarão bilhões de pessoas. De acordo com o relatório, a América do Norte enfrentará um maior número de fortes tempestades, furacões, enchentes, secas, ondas de calor e queimadas, com perdas humanas e econômicas. A África, entretanto, será a região mais afetada, suas áreas secas tornar-se-ão ainda mais secas e o aumento da temperatura incrementará o risco de doenças. Partes da Ásia serão ameaçadas por enchentes e avalanches massivas, causadas pelo derretimento das geleiras do Himalaia, enquanto as áreas costeiras, especialmente os Estados insulares, desaparecerão devido ao aumento do nível dos oceanos e à erosão da costa. Milhões de pessoas em áreas densamente povoadas - particularmente nos deltas dos rios asiáticos - serão ameaçadas pelo aumento do nível do mar e das enchentes. Os Alpes glaciais europeus desaparecerão e a grande barreira de corais da Austrália diminuirá drasticamente por força do aumento, ainda que moderado, da temperatura dos oceanos, afirma o relatório.

Os "pobres mais pobres do mundo" - e aqui se incluem as pessoas pobres de sociedades abastadas - serão os mais atingidos, já que são aqueles que possuem acesso mais restrito aos meios de adaptação às mudanças climáticas, afirma Pachauri.

Ameaça de fome, racionamento de água e extinção de espécies

De acordo com o relatório, em curto prazo as colheitas podem aumentar de 5% a 20%, como resultado de estações de cultivo mais longas, já que a média de temperatura aumentará de 1°C para 3°C. As condições de plantio devem melhorar nas altas latitudes, de forma a proporcionar grandes safras. Quando o aumento de temperatura for maior que 3°C, no entanto, até mesmo as safras do norte e do sul temperados diminuirão. Muitos países em desenvolvimento (PEDs) correm o risco de serem atingidos por períodos de seca cada vez mais longos e intensos, e suas safras podem cair em 50% até 2020. Mais de um bilhão de pessoas poderá viver em contínuo racionamento de água até 2050, especialmente na Ásia. O relatório ainda prevê que até 30% das espécies atuais correm o sério risco de desaparecerem, caso a temperatura global suba 3,6°C em comparação à média das décadas de 1980 e 1990.

Medidas concretas são necessárias

O lançamento do relatório chamou atenção para a necessidade de ações imediatas. O Ministro do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Reino Unido, Ian Pearson, afirmou que o documento traz ainda mais evidências que demonstram a necessidade de os países combaterem as mudanças climáticas com urgência. Inúmeras pessoas já foram afetadas por tais mudanças e, caso medidas concretas não sejam tomadas logo, outros milhões sofrerão as conseqüências.

Sharon Hays, líder da delegação dos EUA no IPCC, afirmou que as mudanças climáticas são um desafio global e requerem soluções globais, já que nem todas as regiões do mundo possuem a mesma capacidade de adaptação. No Congresso estadunidense, Bart Gordon, democrata do Tenessee e membro do comitê de ciência e tecnologia, afirmou que o relatório traz uma mensagem poderosa e preocupante.

O grupo ativista ambiental Greenpeace classificou o relatório como uma "espiada em um futuro apocalíptico"; enquanto Hans Verolme, diretor do programa de mudança climática da organização não-governamental World Wild Fund (WWF), observou que a urgência das conclusões do relatório deveriam provocar ações concretas imediatas por parte dos governos.

Tradução e adaptação de texto originalmente publicado em: Bridges Trade BioRes, v. 7, n. 7, 13 abr. 2007.

Fontes adicionais:

O resumo do relatório do IPCC "Climate Change Impacts, Adaptation and Vulnerability" encontra-se disponível em http://www.ipcc.ch/SPM6avr07.pdf.

ICTSD reporting; "UN climate change impact report: Poor will suffer most," ENVIRONMENT NEWS SERVICE, 6 April 2007; "UN panel issues bleakest warning on climate," REUTERS, 6 April 2007; "Climate report: World’s poorest will suffer most," THE ASSOCIATED PRESS, 7 April 2007.