Tendências globais de investimentos em energia sustentável
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em parceria com a New Energy Finance (empresa especializada na análise de mercados de investimento em energias renováveis), lançou,recentemente, relatório intitulado "Global trends in sustainable energy investment 2007".
O relatório analisa as principais questões e tendências globais relativas a investimentos em energias renováveis e eficiência energética. Segundo aponta o estudo, os investimentos em energias sustentáveis cresceram rápida e consideravelmente nos últimos anos, o que demonstra uma nova tendência dos fluxos de capital no setor de energia. Conforme dados apresentados no relatório, em 2006 os investimentos mundiais em energia sustentável chegaram a US$ 70,9 bilhões - montante 43% maior,do que o registrado em 2005. Para 2007, prevê-se que os investimentos no setor alcancem US$ 85 bilhões.
O relatório também apresenta o crescimento de cada tipo de investimento. Os investimentos em capital de risco e em private equity passaram a representar US$ 7,1 bilhões em 2006 (ante os US$ 2,7 bilhões de 2005). Da mesma forma, os investimentos em mercados públicos saltaram de US$ 4,3 bilhões em 2005 para US$ 10,3 bilhões em 2006. Os investimentos em novos ativos de energia renovável e em atividades de fusões e aquisições também aumentaram nesse período: 23% e 34%, respectivamente. Atualmente, 180 fundos de investimentos focados em energia sustentável administram US$ 18 bilhões..
O estudo enfatiza, ainda, que as fontes renováveis são responsáveis pela produção de 2% da energia total mundial, mas somam cerca de 18% dos investimentos mundiais voltados para a geração de energia. Deste total, 38% destinam-se à energia eólica (setor de maior investimento dentre as energias sustentáveis), 26% aos biocombustíveis e16% à energia solar.
O relatório aponta que existe concentração de investimentos por região: os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são os maiores receptores dos fluxos de capital em energia sustentável, principalmente os Estados Unidos da América (EUA) e a União Européia (UE). Os tipos de investimentos destinados a esses países, porém, variam. Os EUA recebem investimentos em capital de risco e em private equity enquanto a indústria européia atrai investimentos mais significativos de mercados públicos, o que demonstra maior maturidade das empresas européias.
Não obstante a presença de investimentos continue a ser mais forte nos países da OCDE, percebe-se uma mudança nos fluxos de capital, que passam a ser direcionados cada vez mais aos países em desenvolvimento. Nesse sentido, o relatório ainda apresenta um estudo específico dos mercados de energia sustentável na China, Índia, Brasil (os três maiores mercados de energias sustentáveis entre os países em desenvolvimento) e na África. O estudo considera o mercado brasileiro de energias renováveis o maior do mundo no setor, o que se deve principalmente ao desempenho da indústria de bioetanol, cuja produção o Brasil lidera. Prevê-se, ainda, um crescimento no mercado de energia eólica. Embora os investimentos privados em energias renováveis no Brasil sejam pequenos, acredita-se que o avanço tecnológico neste setor, resultante de políticas governamentais sólidas na área, possa contribuir para uma mudança na tendência dos investimentos privados no Brasil.
Reportagem Equipe Pontes
Fontes consultadas:
PNUMA. Global Trends in Sustainable Energy Investment 2007. Disponível em <http://www.unep.org/pdf/SEFI_report-GlobalTrendsInSustainableEnergyInverstment07.pdf>. Acesso em: 27 jun. 2007.
Mercado orgânico global em ascensão: Quais serão os benefícios para PEDs?
Recentemente a União Européia (UE) introduziu uma estratégia que padroniza as etiquetas que identificam alimentos orgânicos e o leste da África adotou um padrão orgânico comum para a região. Paralelamente, o Reino Unido fomenta acalorado debate sobre os impactos ambientais de produtos agrícolas que necessitam de frete aéreo. Esta discussão contrapõe interesses que defendem (por criar novas oportunidades comerciais) e atacam (por trazer conseqüências ambientais) a questão.
Estratégia da UE simplifica a entrada de produtos no mercado
O mercado orgânico da UE é caracterizado por uma miscelânea de padrões privados e nacionais. Em 12 de junho, o Conselho de Agricultura da UE adotou uma nova regulamentação para a produção orgânica e etiquetagem, que deverá ser aplicada tanto aos produtos internos quanto às importações. A estratégia da UE uniformiza uma área comercial que se encontra em rápida expansão, mas não impede o uso paralelo de etiquetas industriais nacionais, que podem até ser mais rigorosas. Os exportadores que procuram entrar no mercado europeu devem aderir aos mesmos critérios ao etiquetar seus produtos como orgânicos. A etiqueta também deve trazer informações sobre a origem do produto.
De acordo com as novas regras de etiquetagem orgânica, 95% do produto deve ser organicamente produzido. No que tange produtos que trazem conteúdos geneticamente modificados (GM), as regras permitem a presença de 0.9% de material "acidental". Consumidores e ativistas ambientais opuseram-se a esta permissibilidade e defenderam uma política de tolerância zero. O padrão utilizado em estratégias privadas é de um limite de 0.1%, o nível mais baixo que se pode identificar material GM.
Lançamento de novo padrão orgânico no leste da África
O Primeiro Ministro da Tanzânia, Edward Lowassa, lançou um novo padrão orgânico para o leste da África em maio passado. Este padrão foi desenvolvido por uma coalizão que incluiu organizações da ONU e a Federação Internacional de Movimentos Agrícolas Orgânicos (IFOAM, sigla em inglês). Depois da UE, esta região africana é agora a segunda no mundo a adotar um padrão uniforme. Os países do leste africano desejam participar mais ativamente deste valioso e crescente nicho do mercado global. Edward Lowassa explica que é preciso aumentar a instrução e a sensibilização dos fazendeiros, para que eles percebam que o cultivo orgânico é economicamente positivo. Além disso, explica ele, a agricultura orgânica é uma oportunidade vital para a criação de negócios e riqueza que contribui com a redução da pobreza.
Angela Caudle, diretora executiva da IFOAM, concorda que os produtores do leste africanos estão "estrategicamente posicionados" para aproveitar as vantagens dos mercados orgânicos mundo afora. Herve Bouagnimbeck, coordenador do escritório da IFOAM na África, acrescentou que a união das entidades públicas e privadas para o desenvolvimento sistemático da agricultura orgânica no leste da África é um modelo de desenvolvimento sustentável a ser contemplado e seguido pelo resto do mundo.
Com o desenvolvimento de uma forte etiqueta regional, os países do leste africanos ganham reconhecimento de seus produtos orgânicos e buscam influenciar as entidades internacionais que estabelecem os padrões para produtos orgânicos. Muitos países em desenvolvimento (PEDs) vêem os padrões orgânicos como uma oportunidade, mas enfrentam desafios para conseguir atingi-los, especialmente se os padrões são desenvolvidos sem sua participação.
Debate sobre "milhas de alimento" e agricultura orgânica continua
Enquanto isto, o debate sobre os rastros de carbono deixados por alimentos importados pode apresentar problemas às estratégias de padrões orgânicos do leste da África. O conceito de "milhas de alimento" - ou seja, o impacto gerado pelo transporte de alimentos do produtor ao consumidor - gerou campanhas que incentivam a compra de produtos locais. Os produtos que utilizam transporte aéreo impactam mais: as emissões de carbono advindas de transporte aéreo são de 40 a 200 vezes maiores do que as emissões de bens enviados pelo mar ou por estradas.
Bill Vorley, do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e para o Desenvolvimento, com sede no Reino Unido, advertiu os consumidores em relação à rejeição de alimentos importados de PEDs por motives climáticos. Ele ressaltou que os benefícios econômicos e sociais destas exportações são significativos para os produtores, localizados, em sua grande maioria, nos países que mais sofrerão com as mudanças climáticas sem terem contribuído com elas. Ele também afirma que os consumidores de países desenvolvidos deveriam focar suas tendências de consumo em todas as outras maneiras de contribuir com o meio ambiente, como a redução de energia ou de vôos turísticos.
Tradução e adaptação de artigo originalmente publicado em Bridges Trade Biores vol. 7, n. 12, 22 June 2007.